Bomba Atômica

Icon

história, ciência e sociedade

A Origem

Depois de a guerra ter estourado na Europa, alguns cientistas judeus foram se refugiar nos Estados Unidos, entre eles estavam Wigner (1902-1995) e Szilard (1898-1964). Sabia-se àquela época que nos laboratórios alemães cientistas nazistas estudavam o átomo e que já conseguiam realizar artificialmente a fissão do átomo de urânio, em busca da construção da bomba atômica. Hitler até teria parado de exportar o urânio extraído das minas da Tchecoslováquia.

Figura 1: Eugene Wigner

Figura 2: Leo Szillard

Einstein foi um dos cientistas judeus que se refugiou nos Estados Unidos, mais especificamente no estado de Nova Jersey, na universidade de Princeton. Ele já não trabalhava mais com física atômica, mas uma de suas mais importantes descobertas, alguns anos antes da guerra, era uma porta para realização do sonho nazista, E = mc². A notícia trazida pelos físicos Szilard e Wigner convenceu Einstein do perigo, que aceitou assinar a carta escrita pelos dois físicos ao presidente Roosevelt. Eles acreditavam que os Estados Unidos deveriam se antecipar na construção de uma bomba atômica, e o cientista escolhido para assinar foi Einstein, devido ao respeito que tinha na época. Após convencido da importância da mensagem o presidente deu início ao Projeto Manhattan. Vale comentar que Einstein não teve nenhuma participação no projeto de construção da bomba, tampouco soube, antes de Hiroshima, que uma bomba de fissão nuclear havia sido construída.

Porém por quase dois anos o projeto andou devagar, com pouca ajuda e pouco dinheiro. Somente em 1941 quando Roosevelt foi informado de que a Inglaterra estava envolvida na construção de uma bomba atômica, e que os alemães estavam possivelmente ainda mais adiantados, resolveu-se acelerar o projeto. No dia seguinte a essa decisão os Estados Unidos sofreram o ataque de Pearl Harbor, pelos japoneses. Foi então que o projeto se tornou a mais importante arma americana contra a guerra, recebendo uma quantia de 1768 milhões de dólares, e tendo como cientista mais importante o italiano Fermi (1901-1954), pois era o responsável pela realização da pilha atômica, a primeira reação em cadeia controlada. Todos os cientistas atômicos disponíveis na América deveriam estar envolvidos nos três centros secretos que foram criados para o desenvolvimento da bomba, chamados de X, Y e W.

Figura 3: Enrico Fermi

No centro X seria realizada a produção de Urânio 235; o centro W seria encarregado da produção de Plutônio, e o centro Y juntaria os esforços dos demais, estabelecendo e calculando a massa de matéria físsil necessária para dar vida à reação em cadeia e determinar os diferentes sistemas de explosão, ou seja, seria onde a bomba seria construída. Para este último centro deveria ser escolhido como chefe um cientista americano de nascimento com conhecimentos amplos em física, e o homem escolhido foi Robert Oppenheimer. Os centros X, W e Y se localizavam respectivamente nos estados de Tenesse, Washinton e Novo México.

Em 2 de dezembro de 1942 Fermi finalizou a construção da pilha atômica e o primeiro teste foi realizado, no estado de Chicago. As barras de urânio foram postas em contato e a reação nuclear foi perfeitamente controlada, sem nenhum desastre.

No início de 1943, a região antes conhecida por Los Alamos, no Novo México, que abrigaria o centro Y, foi extinta do mapa e passou a ser uma cidade secreta, habitada apenas pelos envolvidos no projeto.                             Figura 4: Los Alamos

Haviam cerca de 1900 habitantes neste centro, que contava com escola, armazéns, lavanderias etc. A vida em Los Alamos tinha uma rotina rígida, controlada pelos muitos militares que se mudaram para lá. Às sete da manhã tocava uma sirene que servia como despertador para todos os habitantes. Ás oito horas todos os cientistas e técnicos deviam estar em frente ao centro técnico, com suas identificações onde deveriam fazer a primeira reunião do dia. Ao meio dia tocava a sirene do almoço e outra sirene às 13:30 para a volta ao trabalho. Às 18:30 tocava a última sirene informando o fim do expediente.

No fim de 1944 já haviam mais de 6 mil moradores em Los Alamos, que já contava com três salas de cinema, clubes recreativos e uma vida intensa e animada. Mesmo assim, era ainda uma cidade fechada, dentro dos limites rigorosos estabelecidos pelos militares, regulada por horários inflexíveis e leis severas. O segredo da construção da bomba era circunscrito apenas aos cientistas e técnicos, o restante da população trabalhava em repartições que ignoravam o resultado dos seus trabalhos.

Em abril de 1945 o presidente Roosevelt morre. Nesta altura a Alemanha nazista já agonizava, quase totalmente ocupada pelas tropas aliadas, reduzida a um pequeno território em volta de Berlim. No Pacífico o Japão já estava destruído, as cidades japonesas sob forte ataques americanos. O vice-presidente Truman tomou posse. Ele ordenou a criação de um comitê político e paralelamente de uma comissão científica para resolver os destinos da arma nuclear, chamada de Comitê Ínterim.                                                                                                                                                             Figura 5: Franklin Roosevelt

A comissão científica era formada por Oppenheimer, Compton, Fermi e Lawrence.. A questão que foi levantada numa dessas reuniões era a de utilizar a bomba contra o Japão. Isso porque a Alemanha já havia capitulado e Hitler se suicidado. O Japão, no entanto, ainda resistia contra as tropas americanas.

No comitê havia uma conclusão quase unânime de que a bomba seria o ponto definitivo desta guerra. Alguns cientistas, como Compton, eram contra o uso da bomba em cidades, atingindo populações inteiras, mas ainda havia a lembrança do ataque surpresa feito pelos japoneses em Pearl Harbor, portanto as opiniões divergiam. Oppenheimer, por sua vez, evitava se envolver na questão política e humana da bomba e se restringia à científica, e não opinou a respeito, para ele a morte de centenas de pessoas era o preço para se acabar com uma guerra que, se continuasse, acabaria matando uma outra centena de pessoas. O resultado da reunião foi um comunicado urgente ao presidente Truman, segundo o qual “não existiam outras alternativas, senão o lançamento da bomba sobre uma cidade japonesa”.

O Ministro da Guerra, Henry Stimson, no entanto, ao receber as deliberações desta comissão decidiu organizar uma segunda, nomeada Comitê de implicações sociais e políticas, constituída por James Franck, Leo Szilard e Eugene Rabinovitch. Os três estavam convencidos de que a bomba tinha um poder desumano e de que os cientistas de Los Alamos haviam colaborado para a construção de algo que nunca poderia ser usado contra o próprio homem. Eles elaboraram um relatório, que ficou conhecido como o Relatório Franck, totalmente contrário ao lançamento da bomba atômica sobre uma cidade japonesa não previamente avisada, e acenava à possibilidade de uma explosão demonstrativa numa ilha deserta do Pacífico, presentes os representantes das Nações Unidas. O relatório finalizada dizendo que, “com o conhecimento dessa entidade mundial e de todo o povo americano, persistindo os japoneses em não aceitarem esse ultimato de rendição imediata, poderíamos lançar uma bomba atômica sobre uma cidade inimiga”. No entanto, este relatório chegou atrasado em Washington.

Szilard fez todo o possível para alertar as autoridades, incluindo uma segunda carta escrita por Einstein, desaconselhando o uso da arma, que, no entanto, nunca chegou ao presidente. Ele juntou também a assinatura de sessenta cientistas de Chicago, que haviam participado do Projeto Manhattan, como manifestação pública, novamente sem efeito.

Em julho de 1945 a bomba estava pronta para seu primeiro teste, marcado para ocorrer em um deserto, no sul do Novo México, chamado Jornada del Muerto.

No dia 16 de julho de 1945 ocorre a explosão da primeira bomba atômica da história, batizada de Jumbo (do desenho da Walt Disney). A explosão demorou 40 segundos e os cientistas imediatamente puderam constatar que ela era muito mais poderosa do que eles esperavam. Os Estados Unidos se tornava a nação mais poderosa do mundo.

Figura 6: Preparação da bomba Jumbo.

No dia 26 de julho os governos dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e China publicaram uma declaração conjunta, em que convidavam o Japão à rendição, estabelecendo o dia 2 de agosto como prazo máximo para a aceitação. O governo japonês reagiu imediatamente declarando que não seriam levados em consideração e que a guerra continuaria até a eliminação dos inimigos.

Passado o prazo, o Presidente Truman decidiu pelo uso da bomba. A bomba foi levada para a base da Ilha de Tinian, no arquipélago das Marianas. Os homens da base batizaram a bomba de Little Boy. Ela tinha 80 centímetros de diâmetro, 3,28 metros de comprimento, 4400 quilos de massa.

A carga nuclear possuía 62,3 Kg de Urânio 235, decomposto em quatro partes iguais, mantidas escrupulosamente separas. Somente na última hora, quatro mecanismos de explosão deveriam lançar as quatro cargas uma contra a outra, à velocidade de 1500 m/s, com consequente reação em cadeia.

A orientação era para que a bomba fosse lançada entre as cidades de Kokura, Yokohama, Nagasaki e Hiroshima, conforme as condições climáticas. Na madrugada de 6 de agosto três bombardeiros deixaram a base de Tinian em busca da escolha da cidade que oferecesse as melhores condições. Uma hora depois o bombardeiro Enola Gay, levando a bomba, parte para o Japão. A cidade com as condições favoráveis era Hiroshima. Às 8:15 o Jumbo, ou Little Boy, explode a uma altura aproximada de 600 metros sobre a cidade. A bomba aniquila uma área de 3 quilômetros quadrados e emana um vento que varia entre 300 e 900 graus centígrados, que se expande e transforma tudo em chamas. A onda de choque tinha uma força de 7 mil toneladas por centímetro quadrado.

Figura 7: Explosão da bomba Little Boy.

Figura 8: Little Boy.

Na mesma noite o presidente Truman revelou ao mundo a bomba e muitos bombardeiros americanos se dirigiram ao Japão carregados de mensagens que foram lançadas sobre as cidades, convidando-os à rendição imediata.

Em 9 de agosto, o presidente americano ordenou o lançamento de uma segunda bomba. Esta foi lançada sobre a cidade de Nagasaki, mesmo com mínimas condições de visibilidade. O terror se repetiu, e então o imperador japonês se rendeu.

Em Nova York a imprensa deu as honras da bomba à Einstein, por conta de sua primeira carta ao presidente.

 

Figura 9: Hiroshima , antes e depois da detonação ( imagem de http://construindohistoriahoje.blogspot.com/2010_09_15_archive.html).

Após as Bombas

Oppenheimer continuou a ser o homem de confiança dos Estados Unidos para assuntos relacionados a energia atômica e manteve-se como presidente da Atomic Energy Commissions’s general Advisory Committee. Mas, desde as experiências com as bombas no Japão passou a vetar e se opor qualquer proposta de fabricação ou pesquisa de bombas atômicas. Ele aceitou o cargo de professor e diretor do Instituto de Estudos Avançados de Princeton, cargos vagos após o pedido de demissão de Einstein.

Einstein se uniu também aos cientistas que buscavam maneiras de impedir qualquer uso futuro de um bomba atômica após a segunda guerra. O último documento que ele assinou antes de sua morte em 1955 foi uma proclamação contra o uso de armas nucleares.

Em setembro de 1949 os americanos, sobrevoando o território russo com equipamentos capazes de detectar o grau de radiação, enviaram a notícia aos Estados Unidos de que uma bomba atômica havia explodido na União Soviética. Os americanos viram, então, a necessidade de continuar a pesquisa em armas mais potentes. Imediatamente um surto de medo e insegurança invadiu o país e o físico húngaro, Edward Teller, que participou do Projeto Manhattan e favorável a produção de novas bombas atômicas manisfestou no Comitê de energia atômica a necessidade da criação da bomba H, uma bomba de hidrogênio, muito superior a bomba atômica produzida no Novo México. Oppenheimer, como presidente do Comitê, usou muitos discursos persuasivos contra esse novo projeto. Mas em fevereiro de 1950 o presidente Truman, sem levar em consideração as deliberações feitas pelo comitê, deu ordens para que se iniciasse a construção da bomba H, cujo chefe seria Teller, tendo recebido um laboratório e fundos em Los Alamos para o projeto. Em 1952 a bomba ficou pronta e foi testada no atol de Eniwetock, no oceano Pacífico, ele é cercada de segredos, mas sabe-se que não teve sucesso.

Em 1953 a União Soviética testava com sucesso a bomba de Hidrogênio.

Com a mudança de governo nos EUA, começou uma caça aos comunistas traidores e Oppenheimer estava entre eles. A ele foi proibido o acesso a segredos atômicos e demitido do cargo de presidente da Atomic Energy Commissions’s general Advisory Committee, como provável traidor, principalmente por se opôr a realização da bomba de Hidrogênio. Ele ficou sob investigação do FBI, passando por diversos interrogatórios por cerca de um mês, até ser absolvido das acusações de associação ao comunismo, mas sob pena de manter-se fora de empreendimentos relacionados à defesa nacional, por ser considerado de não confiança.

Em 1954 Teller concluiu a bomba H que foi testada no atol de Bikini, nas ilhas Marshall, revelando uma potência mil vezes superior àquela da bomba atômica que havia destruído Hiroshima.

Em 1964 ele recebeu o Prêmio Enrico Fermi.

Em 1967 morre em Princeton, de câncer na garganta.

Oppenheimer, em 1953 em passagem pelo Brasil ao responder perguntas à imprensa disse “(…) é preciso não esquecer que, no campo da energia nuclear, como em todos os outros, o supremo objetivo é sempre um: o homem”, “Sou um homem de paz. Acredito na paz, e para isso as armas não são necessárias”.

 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: